domingo, 19 de janeiro de 2014

                         Minha Mãe

           Quero falar de um amor que todos temos e nem sempre damos o devido valor... Falar das lutas e dificuldades de ser mãe. Pode parecer fácil, mas este tema é bem complexo. Filhos não vem com manual de instruções. Não podemos devolvê-los ou trocá-los se apresentarem um defeitinho. E realmente, por mais piegas que pareça, só descobrimos o real significado quando nos tornamos mães.

           Quando criança, lembro com saudade de minha mãe dançando comigo e mais sete irmãos no meio da sala. Quando nos cansávamos, ficávamos a observá-la bailar ao som da vitrola sem se cansar. Todas as trilhas sonoras lançadas pelas gravadoras a cada nova novela, eram trazidas por um pai orgulhoso e ávido por agradá-la. Meu pai , Deus o tenha, não gostava de dançar, e quando o fazia, trazia a mão colada à barriguinha e a outra ao alto. Mas gostava de ver nossa mãe dançando ali, ao alcance de suas mãos...No carnaval, meses antes da festa, ele trazia o LP das escolas de samba daquele ano e nos três dias de festa, um fio descia do quinto andar ao térreo de nosso prédio e duas caixas de som embalavam o ritmo e as letras dos sambas de todas as escolas na ponta da língua daquela criançada. Eu e meus irmãos  nos acabávamos de sambar até altas horas junto com vizinhos e amigos.

         No mês de julho nossa mãe reunia as vizinhas e preparavam uma enorme e farta mesa com tudo o que tínhamos direito e mais um pouco: canjica, pés-de-moleque, bolo de fubá e doces próprios da época. Havia a quadrilha, o casamento...Tudo em volta de belíssima fogueira arrumada com esmero por Seu Hildebrando (também nos céus).

         Minha mãe sempre ajudou meu pai em todas as despesas. Fazia limpeza, lavava e passava para fora. Mesmo adoentada, costurava para uma fábrica de tecidos, montava flores para uma floricultura em Vila Kosmos... Lembro das vezes em que , pálida de dor ou mal-estar descia as escadarias do prédio na lavação de final de semana. Nada a fazia parar. Sempre foi batalhadora.

         Sempre tivemos nossas diferenças, mas sei que fazem parte de nossa história de vida. Hoje somos todos adultos e temos nossas próprias famílias. E se nos pegamos a reclamar desta ou daquela arte que nossos filhotes aprontam,  lembramo-nos que Dona Francisca e Seu Paulo curtiram um dobrado com seus oito filhos. Enquanto tantos jovens não aproveitam a oportunidade de estudar, vejo minha mãe com seu caderninho dirigindo-se à igreja para sua aula de alfabetização toda orgulhosa. Nunca imaginei que fosse gostar de crochê, mas vive às voltas com suas linhas e agulhas. Dona Francisca curte seus netos e bisnetos, suas plantas e sua casinha...Tenho orgulho desta lutadora!